Eu sei, já faz mil anos que fiz a última postagem (por isso vou fazer um mega post hoje – Viu Vadico?). Muitos devem estar pensando que é por que aqui começou a nevar, chegou o frio… Bueno… Bueno… foi exatamente o contrário! Fugindo do frio no final do ano, íamos para a Falésia recomendadíssima pelo Raul, La marxuquera, que segundo ele é negativo de agarrão. Havia um feriadão no começo de dezembro e íamos aproveitar para escapar do frio (Porque em Valência é sempre mais quente, e a “escola” é de inverno, bate sol o dia inteiro)… Mas saiu o dente do Ciso da Marmota, e tivemos que adiar a viagem, pois a Marta depois da extração do dente tava inchada que parecia o Rocky Balboa. Creio que a operação NÃO tenha sido um sucesso hahaha Mas uma semana e uma cartela de antibióticos e analgésicos depois, ela já estava respirando sem a ajuda de aparelhos hehe Foram duas semanas entre os primeiros sintomas, a extração e a recuperação… Duas semanas em que tava frio pacarai, e sair pra treinar sozinho tava foda… Aproveitei para fazer meu papel de macho alfa da relação. Enquanto ela enferma ficava na cama, eu lavava a louça e fazia chazinho quentinho pra ela… faz parte!
Mas nos dias que a Marta estava meio doentinha, não fiquei vagal total, pelo contrário, foi o período em que mais trabalhei: dei um puta gás no guia do Cusco! Aproveitando então que estava fazendo tempo ruim no comecinho de dezembro, terminei a parte que estava dando mais trabalho: a parte gráfica que depois de pronta me motivou ainda mais a escrever, escrever e escrever as descrições das vias, no estilo hangon só que um pouco mais atualizado, e claro, adicionando as quase 20 novas vias. Já tem até via que eu nem conquistei ainda hahaha (mas já escalei e só falta equipar). Parte dos desenhos, planta, organização das páginas… tudo pronto. Mais um dia de trabalho e termino a parte do Cuscuzeiro! Aí mesmo sem as fotos vou começar a fazer o de itaqueri e o da invernada.. ah, e do camelo, claro… vai ficar lindo! Falei com a Bia e estamos pensando em colocar as vias de Botucatu e se der tempo e compensar, as vias da região de Ribeirão… o guia vai ficar com umas duzentas páginas, já to vendo! Mas não vou colocar uma descrição tão precisa das vias dos outros lugares como to fazendo com o cuscuzeiro, primeiro porque as vias do cuscuzeiro tem toda essa magia em volta, e é um ambiente mais “hostil” e um pouco de referência ajuda quem estiver indo ali pela primeira vez… E segundo porque Itaqueri a tradição é diferente, pico esportivo, então a localização exata das vias, grau e uma consideração ou outra de uma linha basta, já que as fotos falam por si. Enfim, um guia bem completo está no forno!
Quando ela já estava recuperada pegamos os planos do feriado de 2 semanas antes e descemos pra Valencia. O que pra eles é cruzar o país, pra gente é descer um fim de semana de São Carlos a São Bento. O fato de ter ficado 2 semanas sem escalar pesou um pouco (ai se eu já tivesse lido o livro que eu vou citar mais pra frente deste relato!). Como saímos meio tarde, paramos para escalar em Valéria (cuenca), onde fizemos um bivaque numa cueva que já haviamos bivacado antes, mas no outono. Íamos comer uma bela pasta feita no nosso fogareiro estreado em Rodellar, mas ele ficou em casa, e jantamos um lanchão mesmo hehehe A marta quase congelou com minha master blusa, duas mantas dentro de seu saco de dormir, e meu saco novo de dormir da Lafuma foi megaMaster aprovado com louvor. Mas tava frio. Muito frio.
No dia seguinte acordamos e tocamos pra mais quase 3h até Gandia, no sul de Valencia, onde fica o pico. Apesar de ter mandado uma ou outra via mais dura, eu fazia força de sétimo nos quintos e sextos.. espanco total! A marta por sua vez, adorou o pico e saiu guiando tudo, e mostrando que está na pegada do kamon do São Carlos Pression Team, o que ela não mandava guiando de primeira, entrava de novo até mandar! Eu sei que teve quinto sup que eu nao mandei… Maldito Sandbagging!! O bom é que dava pra ficar de chinelo e de camiseta, coisa que não fazia há varios meses!
Voltamos pra Madrid praticamente na véspera de Natal (noche buena). E começa a maratona de encher a pança à muerte. A programação das tres ocasiões foi praticamente a mesma: Natal, Ano novo e reyes.. (que eles comemoram mais que o natal aqui, no dia 6 de janeiro). Primeiro, na noite véspera (tanto de natal quanto ano novo) a gente começa a “beliscar”… vem vários pratos com pequenas porções.. depois os pratos vão aumentando.. até que você já ta com comida saindo pelo nariz. Aí vem o prato principal. E depois disso ainda tem: Sobremesas (sim, no plural) e o café… que vc claro toma enchendo o cu de doce (mais, e não é a sobremesa). Aí repete-se o processo no almoço do dia seguinte. E repete-se na noite de reveion e no dia primeiro… Na véspera do feriado de Reyes a gente come a mesma quantidade, só que em vez de comida, é o tal do Roscão de reyes com chocolate quente, que você come até sair pela orelha também. E repete-se no dia seguinte. Não a toa engordei 4 kilos do natal até o dia 6!
O detalhe foi que no meio termo, o tempo mudou, e a galera que sobe a serra pra esquiar desde o final de novembro ficou chupando o dedo pois o frio do começo de dezembro deu lugar a um tempo ótimo de primavera! Já é 10 de janeiro e por vários dias estive escalando com uma calça só em vez de duas, e de camiseta curta, que já estavam ficando igual minhas camisas do corinthians: Cheirando a naftalina de tanto tempo guardadas no armário hahahaha

Leitura obrigatória para quem quer melhorar na escalada...
Uma coisa que tem feito muita diferença na minha escalada, sem dúvida, é o livro “9 among 10 climbers do the same mistakes” (9 entre cada 10 escaladores cometem os mesmos erros) do Dave Macleod. O livro é absurdamente bom e melhor que o how to climb 5.12 e training for climbing, ambos do Eric J. Horst. Ele não fica falando que vc tem que treinar ou quais os melhores exercicios para treinar, ele tenta te fazer entender como seu corpo (e sua cabeça) funciona, o que é ótimo, e foca outros pontos que atrapalham mais sua escalada do que simplesmente “força de reglete” por exemplo. Ele põe o dedo na ferida, e já na décima pagina vc já tem umas 4 ou 5 epifanias… e la pela página 60 vc já acha que ele te conhece e se refere a coisas que vc fez, ou amigos seus, pois ele é muito direto e fala tudo que os outros não falam, explicando a raíz do problema… e poe os pingos nos is, separando o maldito magro do maldito Gordo! escalador de ossos largos, o escalador alto do anão com baixa estatura… é uma leitura prática, gostosa e muito direta. Com o livro estou desfrutando muito mais das minhas escaladas, e mesmo em semanas que não da pra apertar muito por causa do tempo ou da marta que estava meio doente, ele ensina que é muito mais facil manter seu nivel que subi-lo, então, basta um pouco de treino sério para não se perder tudo que você havia conseguido semanas antes. Ele coloca que escaladores não diferem dias de escalada de “performace” (o dia de mandar) do dia de treino (em que vc pode nao mandar nada, mas escala muito), o que é um erro. Tira um peso das costas e coloca o treinamento e o pseudo-fracasso como parte normal da escalada. Ah, e claro, tem um capítulo sobre o seu “MEDINHO” de cair, que eu vejo que não só aqui (mas no Brasil também) é muito óbvio ao ver nego que escala faz anos, aperta forte, passeia de top nas vias de sexto grau, mas nao guia nem fudendo ou quando guia são sempre os mesmos quintos que sempre escalam e sabem que vão cair. Se escalada fosse um jogo, eu diria que esses jogam um outro jogo, pois a escalada esportiva não é isso. Enfim, o livro é muito bom e recomendo a todo mundo que eu conheço! Ah, e se vc comprar direto do site/blog do Dave macleod vem autografado hahaha.
E vamos ao que interessa: Escalada! Martinha Bad-ass mandando tudo! Depois das sessões de treino na Complutense do final de novembro, onde pude passar uns boulders pra Martinha apertar bem nos regletes nas paredes negativas, ela parece que pegou uma resista boa… e por estar guiando quase tudo pra baixo de 6sup, está ficando com uma técnica bem apurada.. as poucas vias que ela não manda é porque ou tem um crux de dificil leitura (que estão em seu limite), ou porque é seu ponto fraco: bem negativo com agarras distantes. Mas mais do que cadenas essa menina tem demonstrado atitude. Sempre procura entrar guiando nas vias, e já não tem aquele “medinho”. Se tem que cair cai. Se ta dificil, tenta mais um pouco. Se a próxima ta longe, procura se posicionar bem porque provavelmente é fácil até lá. Não tem “retesa” a menos que seja uma via bem acima do limite. E outra coisa legal é sempre que estamos escalando encontramos alguem com a cadeirinha vestida ao contrário, ou dando seg com a mao esquerda na alavanca do grigri e a mao direita no ar (sim, isso aqui – esse tipo de erro – é mais normal que futebol na praia ou churrasco de fim de semana no brasil) ela vai lá dar o toque na galera. Quando a Marta ja estava se recuperando da extração do dente, fomos dar uma treinada no Rocódromo da Univ. Complutense. Ali encontramos uma ex-professora da Marta, e descobrimos que ela escala (ainda que no melhor estilo “ta dificil pega na costura e escala quarto e quinto grau pra sempre”). Aqui não dá nada pois tem muita via pra escalar e muita via clássica de 300m de IV grau (por isso tambem tem tanta gente que começa e continua escalando). Entre Natal e ano novo combinamos com ela e demos uma escapadinha até Patones, onde fomos a um setor chamado Parking, que fecha (junto com metade do pico) de janeiro a junho para nidificação do féla do Abutre Leonado. Um setorzinho legal, não tão alto, mas com vias interessantíssimas. Ali a Marta descobriu que os negativos de quinto e sexto grau são “fazíveis” pra ela, e ela começou a ficar mais abusada e perder o medo dos negativos. Deu um pega, tirou os moves de um 6a um pouco exigente para o grau, e depois entrou e mandou, com direito a perder o pé no crux, pagar um montê, voltar, não perder a cadena e mandar a via!! Tirei ótimas fotos esse dia… pena que apesar de eu ser um ótimo fotógrafo, a câmera não ajudou, a luz não estava muito boa, a posição não era a melhor, e eu não tinha chiclete de menta.
E eu? Bem, eu gosto mesmo é de escalada coletiva: acho muito chato entrar num 7c/8a sozinho, tirar os moves e mandar em duas ou tres tentativas, porque isso significa que a corda e as costuras ficam ocupadas e só um escala, já que a marta, apesar de já estar se arriscando em algumas vias mais fortes, ainda não desfruta tanto. Em um lugar em que as vias são mais curtas, eu arrisco… Se não mando, costuras nao fazem falta pra próxima via. Em função disso, tenho dado prioridade a escalar as vias que estão no meu limite à vista, para fortalecer um pouco este estilo de escalada, e para pegar um pouquinho de técnica.
Aproveitando o clima ótimo fomos conhecer o Vellon, uma falésia de inverno que tem no caminho de Patones, mas menorzinha, que as vezes nao da pra escalar pq o nivel da represa sobe até o pé das vias. De fato o primeiro dia que fomos tava uma lameira no chao que só deu pra escalar em metade do pico. Mas o bom é que da sol o dia inteiro. Com vias curtinhas, deu pra animar fazer uma forcinha e forçar meu a vista em alguns 6c’s. Destaque para a via “El escorpion” e “La hora de los fantasmas”.
No primeiro do ano fomos na pedriza, e tava um solzão também! Mandei outro 6c a vista mó da hora chamado “Aquele que ronca paga!” com direito a entalamento de mão no final, no granito negativo de agarrão.
No último fim de semana os amigos da academia da Marta, que eu não via fazia um mes e meio quase, resolveram voltar a escalar. Fomos pra San Martin de valdeiglesias, uma falésia um pouquinho mais longe de madrid (1h e poquinho) de granito com graus bem “soft” hehehe Ali eu tinha um projeto antigo de 7c.. mas não um 7c negativo de agarrão de 30m… um 7c de placa…15m bem verticais com regletes do tamanho de um palito de fósforo… (a Kalya na divisa é praticamente escalada em batentes, comparada com essa). Sapatilha pra que te quero! Depois da marta encadenar guiando 2 vias que eu achei que ela não ia mandar nem de top… (um 6a+ e um 6b no croqui), ela entrou na famosa dedos kamikazes.. um 6a+ de uns 20m. E entrou equipando! Bem regletera, ela aguentou bem e mandou a via, ainda que depois tenha me contado que pensou em desistir, mas sabia que eu ia matar ela se ela parasse na costura!! hahha Já que ela ja tava com seu projeto no bolso, era minha vez, e fui dar um pega no 7a (7c br), que se chama “El secreto esta en la técnica”. Mandei a cadena equipando mas tendo saído a 1m do chao depois de parar para tirar os moves (Buuuuurrrrooo)… restou descer, descansar e mandar de novo. Na verdade eu acho que ta mais pra um 6c+.. mas como eu tomei muito espanco de sexto sup que era pra ser 7b… só por pirraça vou deixar 7c no 8a.nu hahahaha A Marta deu um pega de top e…. tirou todos os moves! Lazarenta a menina.. já tá se familiarizando com os 7c’s! Depois disso ainda entrou de top num 7a ao lado com um crux de tetinho, que depois de algumas quedas conseguiu isolar o lance e mandar a via toda… como eu diria: Abusada!
No dia seguinte ainda voltamos a Patones com a Marisa, amiga nossa que esta aqui na espanha pelo mesmo projeto entre USP recicla e UAM que levou a Marta para o Brasil. Levamos ela pra escalar e a MALDITA MAGRA menina mandou sua primeira via sem cair, um quintinho de 30m muito legal que a marta ja entrou equipando.
Depois, aproveitando que estava ali do lado, entrei numa via que tinha deixado pendente fazia mil anos: Maracaybo, um sexto sup com um lance de bidedo negativo no começo e tetão no final cheio de agarrão, que caí da primeira vez com a base na cara… Burrrroooo! Desta vez fiz serviço completo, mas lembro da sensação de intimidação que o teto me passava, apesar de saber que era um sexto sup. Afinal.. tetos são sempre tetos ahahaha

Como sempre... Popóooo.... O bom é que sempre vinha um: "... Mas quem foi que colocou esse agarrão tão bom aqui?!"... à minha cabeça! =D
No fim do dia guiei uma via bem à esquerda da via que a marta tinha mandado outro dia… só que em vez de 6a, era um 6a+. Nossa, li tudo errado a via, e onde era pra esquerda fui pra direita, onde era direita fui pra esquerda! Acabei mandando, e deixei equipada pra marta. Pus um costurão bem depois do crux para o psico dela, mas ela cometeu o mesmo erro que eu no crux e foi pra esquerda em vez de ir pra direita, o que custou a cadena pra ela. Mas com apenas uma queda e não muito descanso ela já voltou pra via e terminou… e eu achando que ela poderia ter dificuldade na via e ter que terminar pela via do outro dia hhaahhaa Ledo engano, a mina ta na pegada!

Com uns dois ou três tentos, ela já tirou sussa o move do Bidedo e com a terceira costurada guiou o resto até a primeira base da via, embaixo do teto.
Maior prova disso e orgulho dos últimos tempos foi no sábado em San Martin, depois de fazer 1 pessoa tirar a cadeirinha já encordado, para vesti-la do lado certo (e logo em seguida outra pessoa escalar com a cadeirinha ao contrario pois nao deu tempo de avisar), e vermos que tinha muita gente fazendo presepada no pico tipo ficando parado e ensolteirado uma costura antes da parada em um quarto grau de 30m, ela me solta a pérola que eu vou levar pra sempre como seu “atestado de integrante do São Carlos pression Team”:
- Você não acha que nessa falésia tem muito tanga hoje?
hahahahaha me mata de orgulho.. nem preciso explicar de onde ela aprendeu a expressão, mas cabia certinho no contexto e em como estava o pico esse dia hahhaa
Bem, agora é focar em fazer compras pra voltar pro Brasil em algumas semaninhas, visitar os ultimos parentes que falta, terminar o croqui do cusco e escalar no tempo livre!
Buenas chicos! Saludos a todos, e façam suas encomendas!









































































































































