Perca o medo de Cair – Parte 5 (aplicando na vida Real)

Vai aprender a bater asas ou ficar aí com medinho?

Vai aprender a bater asas ou ficar aí com medinho?

Provavelmente ao ir progredindo através das etapas, ou pelo menos ao final delas (detalhadas no post anterior), você já vai estar com confiança no sistema e muito mais à vontade para escalar forte com a chapa pra baixo do pé, além de seu medo de cair ter diminuido bastante. Talvez ele nunca desapareça completamente, mas ele pode ser administrado. O próximo passo é escalar uma via esportiva na rocha que te desafie fisicamente.  Escolha uma que tenha boas proteções (bolts/chapas novas) e que não tenha tantos esticões entre elas.  Você pode até fazer o clipa-e-cai numa via na rocha. Novamente, escolha sua via com parcimônia e faça a checagem pré-vôo: Cheque nós, o seg, gatilhos e roscas de mosquetões e até mesmo sente-se ao chegar na primeira chapa se quiser. 

Cuidado: Escalada esportiva é relativamente segura, ainda que o ato de cair não tem uma garantia de 100% de certeza que nada vai acontecer. Siga seus instintos e não despreze o medo racional.” Adrian Berry em Sport Climbing+

Não faça o Clipa-e-cai em vias móveis. É perigoso e além disso vai erodir a rocha no local da colocação da peça móvel. As novas técnicas mentais que você aprendeu com o Clipa e Cai podem lhe ajudar muito quando estiver escalando vias móveis em que você deve colocar suas próprias proteções. Você pode ficar mais confiante e pode relaxar mais, o que fará com que você escale melhor e possa focar em medos racionais – como a colocação da proteção, a qualidade da proteção e o perigo potencial caso você caia. Cair em vias móveis é uma proposta totalmente diferente do que cair em vias esportivas grampeadas. As peças que você coloca podem ser precárias e a linha de queda potencialmente perigosa. Ocasionalmente em vias móveis de uma enfiada, até mesmo na parte mais alta da via pode ser que haja apenas uma peça móvel que esteja bomba o suficiente entre você e o chão, será que ela segura?

Tem gente que abandona camalot por anos na rocha e depois fica: My preciousssss.....

Tem gente que abandona camalot por anos na rocha e depois fica: My preciousssss…..

Treino de quedas na Rocha

Alguns guias e instrutores fazem o treino de quedas com seus clientes. Aqui Alan Carne (www.alanduverdon.com), um guia certificado  (Brevet d’Etat Escalade) que mora num dos picos mais bonitos de escalada do mundo chamado Gorges du Verdon, na França, nos mostra como ele faz esses treinos na rocha.

Aulas de vôo – ou treino de quedas no Gorges du Verdon

Antes de começar qualquer prática de quedas na rocha, é vital que se faça um aquecimento. Isso já lhe prepara para o dia e começa com a caminhada de aproximação no frescor da manhã ou no começo da tarde. Concentrar-se em respirar bem ajuda a manter-se calmo no preparo para o que muitos podem sentir como se fosse o mesmo que “Andar na Prancha”.

Quando eu estou tentando ajudar um escalador a ficar mais a vontade com a sensanção de cair e superar seu medo de perder o controle, eu escolho falésias pequenas e calmas com a opção de vias limpas e bem protegidas.

Nós começamos com um aquecimento sutil, guiando ou de Top Rope, só para melhorar a cordenação, a respiração e para preparar emocionalmente através do estreitamento dos laços de confiança no equipamento e no Seg. As escaladas não devem ser muito difíceis, não extremas e a cabeça do escalador deve estar quieta e focada.

Com um Top Rope armado podemos começar com algumas quedinhas de Top. No começo só com o esticar da corda e depois gradativamente ir adicionando Seg dinâmica e a sensação de queda livre. Como estamos tentando aumentar a confiança no Seg, é muito importante resistir e não dizer: RETESA!

Durante uma sessão de treino de quedas eu gosto de testar a ligação entre o escalador e o seg.

Ambos devem sentir-se ligados pela corda e o escalador deve sentir-se encorajado e seguido pelo seg. Essa é obviamente a essência da Segurança Dinâmica – O seg literalmente segue o escalador durante a queda e o assegura.

A comunicação é importante mas não é simplesmente uma questão de gritar “Kamon”, “Venga” ou “Tô contigo!” toda hora. Isso só serve pra atrapalhar o foco e a concentração do escalador. O Seg deve tentar sentir e acompanhar a escalada e encorajar o escalador naqueles momentos de hesitação ou maior intensidade durante a escalada.

O Seg não é simplesmente um Gri-Gri móvel passivo, mas uma parte ativa e essencial no empenho de perder o medo de cair.”

Uma vez confiante em tomar quedas dinâmicas de Top Rope, mudamos para pequenas quedas guiando em vias levemente negativas com a chapa na altura da cintura, indo trabalhando gradualmente até conseguir pular com a chapa na altura dos pés.

As quedas devem ser dinâmicas e feitas com no mínimo 10m de corda entre o escalador e o seg, com várias costuras clipadas.

Treinos para quedas maiores ou onde a chapa está pra baixo do pé deve ser feito em rocha ainda mais negativa, mas só quando o seg estiver mestre na seg dinâmica.

Com rocha mais negativa vem uma sensação maior de exposição então pode ser uma boa idéia começar o treino de quedas com a costura na altura do peito e ir trabalhando até as quedas com a chapa pra baixo do pé.

O verdon... É LINDXU!

O verdon… É LINDXU!

Uma vez acostumado com pequenas quedas, eu tento escolher vias mais exigentes ou movimentos delicados perto da próxima chapa com uma grande chance do escalador cair. Quando eu faço isso eu encorajo o escalador a se concentrar e a continuar escalando, deixando claro que eu estou com ele prestando atenção em cada move, sempre pronto para dar uma seg dinâmica caso eles caiam.

Ainda que eu tenha destacado tanto a importância da Seg dinâmica, nem sempre é uma boa atitude quando estamos escalando na rocha. Cair durante uma escalada na rocha é coisa séria e requer concentração e dedicação tanto do escalador quanto do seg e não é apenas um treininho de “pular na corda”.

As consequências de uma queda podem ser sérias.

Os parceiros de escalada devem usar seu julgamento e estar cientes de vias com “zonas de pouso” perigosas ou quedas perigosas em que é mais negócio desescalar que tomar uma queda. O Seg deve estar a par de tudo isso e agir conforme a situação. As vezes é melhor dar um passo para trás ou retesar uma barriga de corda se o escalador corre o risco de bater no chão (ou em um platô no meio da via).

Uma vez que o escalador estiver acostumado a tomar voadas seguras em pequenas falésias esportivas o próximo passo é aumentar ainda mais essa recém-aumentada Zona de conforto para o Gorges du Verdon (famosa por suas vias míticas porém com chapas beeem longes entre si)  propriamente dito. Não é pra qualquer um e pode demorar um pouco e requerer muita experiência para superar o medo irracional de cair na “grande arena”, cheia de exposição.  Transformar os treinos de queda em parte de sua rotina de aquecimento no entanto, vai ajuda-lo a escalar mais relaxado e você irá ficar mais expert na arte de cair e de dar seg quando estiver na rocha de verdade.

Mas tem que tar com a cabeça em dia pra guiar lá!

Mas tem que tar com a cabeça em dia pra guiar lá!

É bom estar ciente dos seguintes aspectos quando faz um treino de quedas na rocha:

  • Tente manter os olhos abertos;
  • Fique mestre na Seg Dinâmica;
  • Não segure a respiração, tente respirar normalmente;
  • Deixe-se cair, não pule para trás, você pode bater contra a rocha.
  • Escolha vias com muitas chapas.
  • Muito cuidado para não fazer o “BackClip” nas costuras (costurar errado no sentido inverso: da corda passando de você para a rocha – errado!)

E é isso! Acaba aqui a Série “Perdendo o Medo de Cair”. Espero que tenha sido proveitoso e que todo mundo de agora em diante largue mão do Top Rope e comece a escalar na ponta da corda – que parafraseando o Beto – é onde a escalada de verdade acontece!

Ta vendo? Escalada de verdade é Guiando! Ou você quer ser um iniciante pra sempre?

Ta vendo? Escalada de verdade é Guiando! Ou você quer ser um iniciante pra sempre?

Eu comecei a pesquisar sobre esse tópico de superar o medo de cair porque vinha mandando alguns projetos, porém, ainda havia alguns em que o que estava me impedindo de mandá-los era o medinho de cair – e esse treino realmente me ajudou. Comecei com as voadas de Top na caixa dágua da Ufscar até que já estava pulando de top com a corda fazendo barriga no meu pé. Aí comecei a tomar umas quedinhas guiando mas com a costura na altura do ombro, e fui subindo, subindo, até que praticamente pulei com a costura na canela. No Clipa-e-Cai consegui fazer em quase todos os gomos da Caixa dágua e muito me surpreendeu gente com mais medo que eu conseguindo fazer em TODOS! Aí na rocha fiz um treino de quedas no final de ano num dia de chuva na Sunday, no Cuscuzeiro, já que eramos os unicos no pico e só tinha essa via seca. Consegui dar “UM DOIS TRÊS SALVE EU!” na chapa de cima e pular com a costura no pé! \o/  E aí fui evoluindo: Entrei pra guiar a WATCH ME que é um 6sup (pra quem não sabe meus projetos giram em torno de 7c-8b) e por SORTE a agarra do crux estava com uma casinha de vespa daquelas que é uma bolinha de barro, ou seja, estava bem menor, e eu tomei uma beeela voada, caindo quase que a via inteira. Ta bom né?! 😛 E fui ficando mais confiante até que no último sábado tirei meu diploma de graduação na arte de domínio mental: Mandei meu famigerado projeto que originou toda esta saga: A extensão da Manga com Leite no Cuscuzeiro: a Leite com Pera!  Entrei equipando, tirei os moves, dei um tempo e no segundo pega já saiu, com a seg do Grigri de ouro do Guilherme! A-hul! A “coisa” dessa via é que ela é muito bem protegida, fui eu mesmo junto com o Beto que equipei ela em 2010 (ou foi 11?), mas na hora de pagar o move e pegar no agarrão pra costurar a próxima, a costura ta no pé e é um move que não da pra desescalar… mas foi legal o processo todo de trabalho mental pra poder mandar essa única via! E fiquei mais feliz ainda que no mesmo dia mandei equipando outra via considerada o terror das cercanias onde morava, a Fly Or Die, via do Alemão que abriu várias ali no cusco como a Manga com leite, a Watch me, let’s go, Denorex, ou seja, proteções no Estilo do Verdon: poucas e espaçadas. Você paga o crux com a chapa bem pra baixo do pé e a próxima ainda demora pra chegar. E mandei essa via muito sólido, tranquilo e focado. Isso sim foi praticamente meu Tcc na graduação do mental game! hahahaha

"Grilherme":  GriGri de Ouro!

“Grilherme”: GriGri de Ouro!

Preparando pra entra no move... Leite com Pera, 7c - Cuscuzeiro

Preparando pra entrar no move… Leite com Pera, 7c – Cuscuzeiro

No meeeio do move...

No meeeio do move…

Pegou no agarrão, costurou, e agora faz o que? PRA CIMA!

Pegou no agarrão, costurou, e agora faz o que? PRA CIMA!

Ah, e antes tarde do que nunca, parabéns para o Ives que cumpriu a promessa e mandou a Sunday Bloody Sunday de primeiro pega sábado! Seu terceiro 7a , segundo do ano… keep up the good work viado!

Bom. Mas tava devendo? kkkkkkk

Bom. Mas tava devendo? kkkkkkk

Valeu galera, amanhã ou depois voltamos com nossa programação normal, tenho milhoes de videos acumulados pra compartilhar!

Ah, e para os curiosos de plantão vou ver se eu coloco em breve os videozinhos da Caixa dágua do Ives voando 4 gomos, do Daniel voando uns 5 ou 6 e da Marina pizzaiola fazendo o Clipa-e-Cai (na cda tbm)..Teria o Ives voando uns 6 ou 7 gomos, mas teve gente que filmou o saco e na hora da voada apertou o botao e parou de filmar  7:/

Perca o medo de cair – Parte 3 (Aprendendo a dar seg Dinâmica)

Continuando a série com a outra ponta da corda importante: O Seg!

Continuando a série com a outra ponta da corda importante: O Seg!

Eu já vi gente machucando o pé porque estava tão tenso e tão assustado com a possibilidade de uma queda que caiu dura como um tijolo, toda tensionada, e isso a fez achar que quedas são “perigosas”. Já vi também gente caindo despreocupada e o seg não dinamizou a queda como deveria e a pessoa foi puxada contra a parede pelo seg, ganhando um belo roxo na perna. Em ambos os casos, não foi o fato de cair que provocou um dano na pessoa, mas sim o fato de um não saber cair, e o outro não saber assegurar. Por isso continuando a série “Perca o medo de cair” vou abordar a tão importante e esquecida “Segurança Dinâmica”. Quando estive escalando com o Birão e a Dani em Arco em 2009 eles já me alertavam sobre a importancia de fazer a Seg dinâmica. Algum tempo depois o Raul trouxe da espanha essa técnica para o Brasil e difundiu entre a gente, para que pudessemos nos tornar melhores asseguradores, e consequentemente quem estiver escalando ficar despreocupado para poder escalar “À muerte”.

A Seg dinâmica para paredes de escalada e vias esportivas

Quando você cai numa via esportiva ou parede indoor, ninguém quer uma “freada” abrupta que vai causar um impacto nos seus orgãos internos, machucar suas costas e te jogar contra a parede machucando um pé.

Para que isso aconteça não é muito dificil: basta escalar com uma corda bem usada, pelucenta (parecendo um urso de pelúcia) que nem estica mais e que acabou de tomar uma grande queda, usando um freio “autoblocante” (tipo o Grigri), ser mais leve que seu seg e que ele fique parado como uma pedra junto à parede ou se ancore à alguma coisa no chão e ainda pule pra trás retesando corda na hora da sua queda.

Isso garante que quando você cair você tenha uma parada brusca e bata contra a parede. O resultado de uma queda tão estática pode ser no mínimo desconforto e na pior das hipóteses uma lesão.

O que esperamos de um seg numa via esportiva é uma “pegada” suave ou amortecida usando um freio dinâmico. Você começa a voar e gradualmente para, como se estivesse pulando de bungie jump só que sem o “chicoteio”. O escalador em queda desacelera, em vez de tomar uma parada brusca.

Um parceiro firmeza é fundamental para sua cabeça ficar tranquila

Um parceiro firmeza é fundamental para sua cabeça ficar tranquila

John Arran fez uma analogia:

“Se você segura uma bola de sinuca, que lhe é arremessada, com a mão dura e estática, ela vai doer, pois a bola para bruscamente e toda a energia que a bola tinha vai direto para sua mão, rapidamente. Se você recebe a bola dinâmicamente com um movimento para trás de maneira que a bola pare devagarzinho, a energia vai ser absorvida mais lentamente e não haverá um impacto doloroso. “

Pegar um ovo caindo sem deixá-lo quebrar também é uma boa analogia, diz Adrian Berry.

Como dar uma Seg Dinâmica

A Seg dinâmica é dinâmica porque o seg se move. Como ela é dada depende completamente da diferença de peso entre o escalador que cai, e o seg.

Um assegurador mais leve naturalmente irá dar uma seg dinâmica porque ele automaticamente será puxado pra cima na hora da queda.

Um assegurador (ou Seg) mais pesado precisa estar mais alerta e deve adotar uma posição alguns metros para trás da base da via, dessa forma ele:

1- Conterá a queda dinamicamente, e para isso ele deve antecipar o milésimo de segundo antes da corda esticar na hora da queda e, nesse exato momento, travar o freio e mover-se rapidamente para frente até o pé da via.

2- Conforme o Seg se move, a corda vai esticar, mas toda a força da queda terá mais tempo para ser dissipada, resultando numa queda suave com menos risco de bater em alguma coisa.

A seg dinâmica irá resultar no escalador caindo mais do que numa seg “retesada”. O Importante é que a queda seja parada devagar, não que o tamanho da queda seja minimizado.

Saiba mais sobre isso neste artigo do UKclimbing: Dynamic Belaying by by Adrian Berry

Por trás de toda grande cadena tem sempre um grande Seg!

Por trás de toda grande cadena tem sempre um grande Seg!

E a seguir algumas dicas para sua escalada dinâmica:

  • Depois de uma queda muito grande ou repetidas quedas, você precisa por a corda pra descansar. Ela precisa se recuperar. Ou troque a ponta em que se estava escalando ou deixe a corda descansar por uns 20 minutos.
  • A Seg dinâmica é possível com qualquer tipo de freio.
  • O Corrimento da corda pelo freio vai aumentar o dinamismo da seg “dinâmica”.
  • O Corrimento da corda pelo freio é maior em cordas finas.
  • Certifique-se de que você está usando o freio correto de acordo com o diâmetro da sua corda.
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E você, sabe fazer a Seg dinâmica?

Bem, eu achava que tinha acabado, mas ainda tem mais um pouco de artigo, agora, ajudando as pessoas à aplicarem a técnica pouco a pouco e a evoluirem com ela. E como sei que todo mundo odeia artigos longos, optei por colocar pouco a pouco!

E se vc quer um videozinho instrutivo, o do GriGri ensinando como usa-lo mostra os “Pros” usando ele corretamente e e fazendo a seg dinamicamente tambem..