Perca o medo de cair – Parte 3 (Aprendendo a dar seg Dinâmica)

Continuando a série com a outra ponta da corda importante: O Seg!

Continuando a série com a outra ponta da corda importante: O Seg!

Eu já vi gente machucando o pé porque estava tão tenso e tão assustado com a possibilidade de uma queda que caiu dura como um tijolo, toda tensionada, e isso a fez achar que quedas são “perigosas”. Já vi também gente caindo despreocupada e o seg não dinamizou a queda como deveria e a pessoa foi puxada contra a parede pelo seg, ganhando um belo roxo na perna. Em ambos os casos, não foi o fato de cair que provocou um dano na pessoa, mas sim o fato de um não saber cair, e o outro não saber assegurar. Por isso continuando a série “Perca o medo de cair” vou abordar a tão importante e esquecida “Segurança Dinâmica”. Quando estive escalando com o Birão e a Dani em Arco em 2009 eles já me alertavam sobre a importancia de fazer a Seg dinâmica. Algum tempo depois o Raul trouxe da espanha essa técnica para o Brasil e difundiu entre a gente, para que pudessemos nos tornar melhores asseguradores, e consequentemente quem estiver escalando ficar despreocupado para poder escalar “À muerte”.

A Seg dinâmica para paredes de escalada e vias esportivas

Quando você cai numa via esportiva ou parede indoor, ninguém quer uma “freada” abrupta que vai causar um impacto nos seus orgãos internos, machucar suas costas e te jogar contra a parede machucando um pé.

Para que isso aconteça não é muito dificil: basta escalar com uma corda bem usada, pelucenta (parecendo um urso de pelúcia) que nem estica mais e que acabou de tomar uma grande queda, usando um freio “autoblocante” (tipo o Grigri), ser mais leve que seu seg e que ele fique parado como uma pedra junto à parede ou se ancore à alguma coisa no chão e ainda pule pra trás retesando corda na hora da sua queda.

Isso garante que quando você cair você tenha uma parada brusca e bata contra a parede. O resultado de uma queda tão estática pode ser no mínimo desconforto e na pior das hipóteses uma lesão.

O que esperamos de um seg numa via esportiva é uma “pegada” suave ou amortecida usando um freio dinâmico. Você começa a voar e gradualmente para, como se estivesse pulando de bungie jump só que sem o “chicoteio”. O escalador em queda desacelera, em vez de tomar uma parada brusca.

Um parceiro firmeza é fundamental para sua cabeça ficar tranquila

Um parceiro firmeza é fundamental para sua cabeça ficar tranquila

John Arran fez uma analogia:

“Se você segura uma bola de sinuca, que lhe é arremessada, com a mão dura e estática, ela vai doer, pois a bola para bruscamente e toda a energia que a bola tinha vai direto para sua mão, rapidamente. Se você recebe a bola dinâmicamente com um movimento para trás de maneira que a bola pare devagarzinho, a energia vai ser absorvida mais lentamente e não haverá um impacto doloroso. “

Pegar um ovo caindo sem deixá-lo quebrar também é uma boa analogia, diz Adrian Berry.

Como dar uma Seg Dinâmica

A Seg dinâmica é dinâmica porque o seg se move. Como ela é dada depende completamente da diferença de peso entre o escalador que cai, e o seg.

Um assegurador mais leve naturalmente irá dar uma seg dinâmica porque ele automaticamente será puxado pra cima na hora da queda.

Um assegurador (ou Seg) mais pesado precisa estar mais alerta e deve adotar uma posição alguns metros para trás da base da via, dessa forma ele:

1- Conterá a queda dinamicamente, e para isso ele deve antecipar o milésimo de segundo antes da corda esticar na hora da queda e, nesse exato momento, travar o freio e mover-se rapidamente para frente até o pé da via.

2- Conforme o Seg se move, a corda vai esticar, mas toda a força da queda terá mais tempo para ser dissipada, resultando numa queda suave com menos risco de bater em alguma coisa.

A seg dinâmica irá resultar no escalador caindo mais do que numa seg “retesada”. O Importante é que a queda seja parada devagar, não que o tamanho da queda seja minimizado.

Saiba mais sobre isso neste artigo do UKclimbing: Dynamic Belaying by by Adrian Berry

Por trás de toda grande cadena tem sempre um grande Seg!

Por trás de toda grande cadena tem sempre um grande Seg!

E a seguir algumas dicas para sua escalada dinâmica:

  • Depois de uma queda muito grande ou repetidas quedas, você precisa por a corda pra descansar. Ela precisa se recuperar. Ou troque a ponta em que se estava escalando ou deixe a corda descansar por uns 20 minutos.
  • A Seg dinâmica é possível com qualquer tipo de freio.
  • O Corrimento da corda pelo freio vai aumentar o dinamismo da seg “dinâmica”.
  • O Corrimento da corda pelo freio é maior em cordas finas.
  • Certifique-se de que você está usando o freio correto de acordo com o diâmetro da sua corda.
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E você, sabe fazer a Seg dinâmica?

Bem, eu achava que tinha acabado, mas ainda tem mais um pouco de artigo, agora, ajudando as pessoas à aplicarem a técnica pouco a pouco e a evoluirem com ela. E como sei que todo mundo odeia artigos longos, optei por colocar pouco a pouco!

E se vc quer um videozinho instrutivo, o do GriGri ensinando como usa-lo mostra os “Pros” usando ele corretamente e e fazendo a seg dinamicamente tambem..

Perca o medo de Cair – Parte I

Veja uma das melhores escaladoras do mundo voando: Alguma careta?

Veja uma das melhores escaladoras do mundo voando: Alguma careta?

À medida que eu fui evoluindo na escalada, fui tratando de melhorar cada vez mais cada aspecto da minha escalada a conforme eu ia sentindo o que faltava para fazer as vias que eu queria encadenar(e acho que nunca vai parar):

– Trabalho de pés: Fui pro granito aprender a usá-los melhor uma vez que não tem onde segurar ou apertar mesmo.

-Pressão: Treino na garagem de casa no murinho negativo com diversas pegadas desde abaolados a regletes e pincinhas.

-Resistência: Treino na Caixa d’água da Ufscar subindo várias vezes sequenciais sem desencordar, cada vez vias mais no meu limite, o qual ia aumentando. Basquete às segundas pra correr e suar, uma vez que não suporto correr.

-Técnica: Muitas viagens para escalar, por vários lugares, dando especial atenção à escalada à vista, sem betas, em vias abaixo do limite ou no limiar. Lembrando que escalada de verdade acontece na rocha, e que resina é apenas punheta treino.

-Foco: essa veio da motivação em querer muito encadenar uma via, decorar cada pedacinho dela e executar os movimentos de maneira centrada com precisão cirúrgica. Você ganha alguns pontinhos no quesito foco cada vez que encadena uma via acima do seu limite, em que você não pode errar, ou está escalando uma via no seu limite a vista. É mais facil se é numa via que você gosta, que te motiva e te da prazer.

E lembrando também que depois que você começa a guiar sextos graus, não tem mais Top Rope, que é um artifício utilizado basicamente para aquele seu amigo iniciante que está indo as primeiras vezes na rocha e não sabe guiar ou não tem ainda força suficiente para se sustentar nem nos quintos graus. Insistir no Top Rope é deixar de lado uma das coisas mais gostosas da escalada que é a “Aventura”, ou seja, aquela sensação, ainda que leve, de incerteza, de que o inesperado e o incontrolável podem acontecer tirando seu controle da situação. Update: “Escalar de Top Rope é como nunca tirar as rodinhas laterais da sua bicicleta”. Sem contar que guiando seu nível de atenção aumenta exponencialmente e seu comprometimento acaba sendo muito maior, o que aumenta seu nivel de aprendizado de maneira concreta. Uma queda na escalada, esportiva principalmente, é a coisa mais normal do mundo, e se você tem medo de se machucar, ou já se machucou, é porque você e seu parceiro de seg precisam praticar mais as quedas.

Ótima Sapatilha!

Ótima Sapatilha!

Aí chegou um dia que eu estava forte, fazendo movimentos técnicos, com a pressão em dia, com um ótimo trabalho de pés e…. desescalando e pegando na costura porque estava com medinho de ir para a próxima agarra, que, diga-se de passagem, era um agarrão. Me aterrorizava o fato de que entre soltar uma agarra de mão direita enquanto estivesse apertando um reglete bom de mão esquerda eu pudesse vir a cair. Sabia que a corda era nova, o bolt tava colado, a chapa era importada, a costura confiável, o nó bem feito e o seg firmeza. Mas nada disso me convencia. Tentei evitar. Tentei adiar. Tentei negar. Tentei fazer vista grossa. Mas não deu. Simplesmente o que estava fazendo com que eu não pudesse praticar o que eu mais gosto de fazer que é escalar, era o medinho de cair. Não era em todas as vias. Só nas que estivessem acima do meu limite, e que tivessem movimentos delicados com a costura pra baixo do joelho. E conforme eu fui mandando as que eram melhor protegidas, foi sobrando só essas. Até que um dia eu me cansei. Quebrei minha rotina de treinos que estavam sendo inúteis: Pra quê treinar no abaolado, fazer finger, perder peso, se na hora “H” eu ia falar “Retéeeeeesa” e descer? Peguei um seg firmeza que eu confio que não ia me dar uma barriga de corda sem eu ver pra eu cair mais porque ele acha que se eu tomar uma queda simplesmente eu vou perder o medo de cair e fui pra Ufscar treinar quedas. E descobri que o medo de cair não vai embora. Então não adianta você cair pra perder o medo. Conheço várias pessoas que pararam de escalar depois de sua primeira vaca. E outras que diminuiram muuuito o ritmo de escalada depois dela por terem ficado “traumatizados” por ela, por mais limpa que tenha sido. Eu descobri que para enfrentar o medo de cair e fazer movimentos com a costura pra baixo do pé, o que vc precisa é de uma predisposição cerebral, uma estratégia, um mentalgame, tipo quando a Sininho lhe joga pózinho de pirlimpimpim e você deve ter pensamentos felizes pra poder voar. Na verdade é exatamente isso. Mas você só vai aprender como funcionam os mecanismos dentro da sua cabeça pra fazer isso, fazendo. Pulando. Se jogando, fazendo um treino de quedas. O Dave Macleod dedicou um capítulo inteiro do livro dele “9 entre cada 10 escaladores cometem os mesmos erros” para falar só sobre o medo de cair. É ele quem esta segurando a evolução da maioria dos escaladores.

Medo todo mundo tem, como você lida com o seu?

Medo todo mundo tem, como você lida com o seu?

Por isso eu pesquisei na internet alguns artigos sobre o medo de cair, porque como eu sofri desse mal alguns meses (é como alcoolismo, é preciso estar atento e tomar vuadas constantes para o medo nao voltar) comecei a perceber e me incomodar que muitos amigos meus tem esse medo mas não admitem. Então percebi que muito se fala mas nada se faz nesse sentido. Cada vez mais vejo costurões de 1,5m nas vias bem protegidas, onde as pessoas escalam de “Autotop-rope” (lembro de um artigo que o Ale Silva escreveu uma vez – talvez na Headwall? – sobre isso). O medo de cair é uma realidade para todos, e a maneira de como encarar uma queda deve ser treinada constantemente. Achei um artigo muito bom na UKClimbing.com e vou postar aqui algumas destas técnicas. Como só até aqui o post já está imenso, vou dividir por partes para os coleguinhas que tem medo de ler e de cair possam agregar esse conhecimento e sair dessa Dark Zone do climb em que nos coloca o medinho de cair.

Sim, é normal!

Sim, é normal!

E você? Tem medo de cair? Já tomou uma bela voada com a costura pra baixo do pé? SABE cair? Não perca o próximo post com informações valiosíssimas sobre como negociar com o medo nosso de cada dia de decolar das vias…