Novo Pico de Escalada em São Carlos

Antes de você pegar o ponto do pico no GPS, favor ler o post até o final…

O Pico novo tem 40m, 25 de negativo e 15 de vertical final.

O Pico novo tem 40m, 25 de negativo e 15 de vertical final.

Pois nos últimos meses o motivo de estarmos tão sumidos é apenas um. As conquistas incessantes na nova falésia que descobrimos aqui em São Carlos. O Pico fica próximo da Caverninha, mas do lado contrário da Cuesta, mais para o lado da Invernada, só que com um arenito quase quartzito vítreo. Ano passado o Ives, Guilherme e eu demos várias pernadas em busca de picos novos e meio que sem querer, na volta de mais uma investida frustrada, reparamos que o carro estava esquentando. Por sorte tinha sobrado uma nalgene cheia de água esse dia. Quando paramos pra encher o reservatório de água do carro, eis que o Gui da uma pescoçada entre as árvores e observa uma ponta de rocha quase imperceptível. Como já estavamos ali mesmo, e tinhamos aproximadamente uma hora de sol ainda (abençoado horário de verão) tentamos alcançar a pedra, que parecia próxima. O primeiro acesso demorou: Muito mato, espinhos, arranha gatos e quase 45m depois chegamos à rocha que haviamos julgado que demoraria nem 10mins. Ficamos boquiabertos com o que haviamos descoberto. A Boca de uma E-NOR-ME gruta de arenito/quarzito com aproximadamente 40/50m de altura. Bem na curvinha do morro, virada pra dentro, não visível da estrada, a não ser pela pontinha da direita, por onde se chega.

Gui no ultimo furo da Pulo do Gato, primeira chapa da via.

Gui no meio da conquista da “Aqui é Lebron James”

Claro que alucinamos no pico e desde outubro as conquistas estão fervorosas e rolando em segredo, uma vez que tivemos problemas de acesso em outros 2 picos por causa da minha boca grande e escaladores inconsequentes (e já cheguei a ouvir de gente que nunca tinha aberto via dizendo: “…to indo amanha com fulano lá abrir via, se quiser ir blz, se não que se foda…”). Há hoje 3 picos de escalada com vias abertas com acesso proibido aqui na região de São Carlos. Não queríamos que esse se tornasse mais um, pois é muito clássico. Tão Clássico que começamos a chamá-lo de Eldorado. O suprassumo do que sempre estivemos buscando: Rocha boa, alta, não podre, com agarras, sem abelhas, sem problemas com proprietário e acesso rápido (o acesso, uma vez que a trilha ja está aberta, é em torno de 15 minutos).

Metranca nova e muita chapa..

Metranca nova e muita chapa..

Bem, por essa e por outras razões tocamos o projeto em segredo, só sabendo e tendo ajudado nas conquistas os mais chegados mesmo, como Beto, Ives, Guilherme e nem as respectivas estavam por dentro do que estava se passando. Pra vocês terem noção já tivemos que comprar outra furadeira, e a remessa de 500 chapas Gariglio que o Gui trouxe de BH pra Quero Escalar ano passado já estão acabando!!! O pedido de bolts que eu fiz na âncora ano passado também já está no final.  Ah! E – pasmem – nem sikadur tem sido necessário nas conquistas de tão boa que é a rocha! (com exceção de um furico ou outro numa faixa menos boa no comecinho da parede mas que ficou resolvido com os tais Bolts tipo “Alpha”.

Beto terminando uma das conquistas noturnas

Beto terminando uma das conquistas noturnicamente

Para nooooooossa alegria, (e para dificultar as conquistas) não tem uma fendinha no pico inteiro, então não teve linha desperdiçada com polêmicas sobre ser mista, móvel, solo ou com chapa. Todas as vias estão com corrente e mosquetão na parada, e em algumas inclusive deixamos Perma-draw nos crux que também ajuda pra limpar a via devido à negatividade da parede. Das 17 vias que abrimos desde outubro até agora, 9 terminaram com aproximadamente 28 ou 30m, 6 estão com 40m e possuem uma parada intermediária nos 30m para descer com corda de 30m, e apenas uma está com 18m que é um quintinho bem na direita onde a parede começa. Até agora ficou assim então, da Esquerda pra direita:

1deabril

A trilha de chegada é pela direita. Na rodovia São Carlos – Descalvado, entrar a direita no Km 12, andar 3km na terra e parar 100m depois do portão azul. A trilha vai estar logo a direita do lado de um Eucalipto perdido no meio da vegetação de cerrado.

1 – Tem dia que de noite é assim 7c

2 – A tara de shitara – 8c (7c até a primeira parada)

3 – Nunca mais vamos beber – projeto (deve ser um 9a, mas como só temos ido lá pra conquistar não mandamos ainda).

4 – Inferno astral – Projeto (até a primeira parada talvez 9a, depois, décimo quem sabe)

5 – Inferno de Dante – Variante da  Inferno astral, depois da 4º chapa vai pra direita, provavelmente 8a.

6 – Os gritos do surdo-mudo – 7b

7 – Até uva Passa – 6sup

8 – Quem poderá nos ajudar? 7a

9 – Só não te dou outra porquê… 7c

10 – Paixão Obsessiva Compulsiva – 8b (até primeira parada, depois talvez 8c)

11 – Que Medinho que me dão – 7a

12 – Lição de Casa 7b (Variante da 11, na segunda chapa vai pra direita)

13 – Aqui é Lebron James 8c (Até primeira parada, crux de bote na saídinha, mais 4 chapas até o final, 9b)

14 – Ouro 18 Pilates 8b (até primeira parada, 8b/c até o final)

15 – Errou feio, errou rude, 7b

16 – Singularidade espaço-tempo – 7b

17 – Vem com papai, vem.. 5sup

Conquistadores: Beto e Genja: 1, 2, 3, 7, 8, 9, 14, 16

Genja e Ives: 4, 5, 6, 10, 11, 12, 17

Guilherme e Genja: 13, 15

Conquista debaixo: Furadeira a tiracolo, jogo de camalots, de nuts, de Tricams, martelo, chapas, bolts, chave de boca... Acha! Ta levinho!!

Conquista debaixo: Furadeira a tiracolo, jogo de camalots, de nuts, de Tricams, martelo, chapas, bolts, chave de boca… Acha! Ta levinho!!

Bem, é isso galera, as conquistas não param! Lembrando que para QUALQUER via (menos a 17), corda de 30m obrigatório! Levem repelente pq os mosquitos pegam forte, loninha pra corda pq a poeira é grande, e PELO AMOR, se for CAGAR, enterrem TUDO, inclusive o PAPEL, bem escondidinho como se ninguém pudesse saber que você foi ali! Agradecemos aos chegados que doaram grana para chapas ou chapas propriamente ditas. A Quero Escalar tem apoiado bastante também doando mosquetões e correntes para as paradas as vias, então clipou desceu!

Foi mal galera, primeiro de Abril!

Foi mal galera, primeiro de Abril!

Galera, para não perder o costume, o post de primeiro de Abril deste ano foi hilária. Estava inspirado, por isso uma história tão consistente. NO ENTANTO, esse post poderia ser verdade se mais gente se envolvesse na busca por novas falésias que tenham potencial para se tornarem novos picos de escalada, nas politicagens e negociações com proprietários intransigentes de picos que já tem vias mas estão fechados (nunca chegaram a ser abertos – ou nos novos em potencial) ou ajudando na vibe pra tirar abelhas. Foi mau aí quem se animou com um pico novo, não seria da hora se tivéssemos um pico novo em vez de ficar emendando linhas entre vias nos picos já tradicionais existentes? Nada contra, aliás, adoro… mas ahhh como eu queria encontrar o meu Eldorado… sigo na busca!

Vídeos e novidade!

Shimoto, em sua homenagem a foto-decorativa de hoje!

Shimoto, em sua homenagem a foto-decorativa de hoje!

Semana passada foi uma correria: entre arrumar malas, aprender a usar um programa novo e com ele fazer uma apresentação para o 15º Encontro de Escalada de Londrina sobre erros comuns e práticas seguras em Escalada Esportiva, não sobrou tempo para post no blog. Mas em compensação o Encontro foi muito legal, fiquei com uma melhor impressão ainda do pico dessa vez, tendo entrado em vias “modernizadas” seguras mas não por isso menos desafiadoras. Viagem tranquila, amigos agradáveis, bom climb, enfim, tudo na paz. Pena que esqueci minha câmera e não tirei nenhuma foto :/ Na verdade não faço idéia de onde ela esteja!

Enquanto isso, não muito longe dali… Acumulei alguns vídeozinhos muito interessantes. Vamos a Eles?

Começando com a super conquista brasileira no Fitz Roy, na Patagônia. Muita sorte com uma ventana de tempo bom incrível, e claro, muita competência por parte dos escaladores incontestáveis Sérgio Tartari, Flávio Daflon e Luciano Fiorenza.

E mais um filminho brazuca bastante simples e aprazível. Tardes de outono em Floripa mostra um lado Catarinense pouco divulgado por aí com uma escalada bonita num vídeo bem instrutivo. Diz a autora do vídeo que vem mais por aí… Estamos no aguardo! =D

E lembra daquela série da Mammut sobre vias velhas escaladas por escaladores novos? Pois é. Aparentemente hoje em dia os escaladores ficam escolhendo as vias mais perfeitinhas e no seu estilo pra evoluir ou pelo menos se divertir. No de hoje o Sean MColl um dos grandes das competições Não-mandando a via Hubble da Lenda dos anos 80 Ben Moon, que abiu e aparentemente foi o primeirio a mandar a via que tem agarra molhada, clipada tensa, crux no começo, passagens esquisitas, em pouco mais de 15m… haha 

E já que já fomos pra gringa, um vídeo que dá água na boca sobre um pico alucinante. Detalhe que é um vídeo comercial feito pelo/para o abrigo local e mesmo assim é de se assistir de novo. Detalhe para a Caroline Ciavaldini de Biquininho. ;P

Se você gostou da Carol, veja esse vídeo que mostra, entre outras coisas, um pouco do início de sua carreira:

Mas falando em garotas gringas... Ô Grória.. Daila Ojeda, Alizee Dufraisse e Olivia Hsu contando sobre suas motivações na escalada e claro, escalando num daqueles vídeos Zen da prana para quem é vegetariano, vai pro trabalho de bike, ajuda no azilo, doa sangue toda semana, não fala palavrão, não bebe alcool, não usa drogas e não fala mal de ninguém. (ou seja, não existe kkkk)

E Aqui a lenda viva Cuscuzeiriana, o cara que abriu as famosas Watch Me, Let´s Go, Mosquitos, Denorex, Fly or Die e Manga com Leite no Cuscuzeiro, o tal do “Alemão”… Carsten, falando sobre as maravilhosas cordas da Edelrid:

No final, mas não por último, uma palestra/vídeo/documentário sobre o famigerado Alex Honnold. Perguntas inusitadas… E confessando sobre sua motivação para solar vias e como ela foi mudando ao longo do tempo. “…No princípio eu comecei a solar pra ver se eu comia alguém..” kkkkkk Hilário…. 

E encerro deixando a foto da capa do Guia do Cuscuzeiro que finalmente está na Gráfica para impressão. Em breve à venda em alguns lugares que eu vou selecionar a dedo kkkkk

Guia Completo de escaladas do Cuscuzeiro - Já na gráfica, em breve, na Quero Escalar!

Guia Completo de escaladas do Cuscuzeiro – Já na gráfica, em breve, na Quero Escalar!

 

 

E o mutirão?

Gaivota e Beto no Pau-de-Arara carregando lenha para os degraus!

Gaivota e Beto no Pau-de-Arara carregando lenha para os degraus!

O mutirão fui um sucesso! No sábado estivemos em peso os escaladores do CUME e agregados pra dar “Aquele” talento na trilha do Cuscuzeiro. Até quem fazia anos que não aparecia ajudou a por a mão na massa. Nomes como Gaivota, Bruno e Russo que andavam meio sumidos apareceram pra ajudar a deixar a trilha mais transitável e duradoura – leia-se à prova de chuva. Estivemos o Ives, a Isa, o Beto, O Greg, a Tha, a Ju, o Kops, o Sevê, o Gera,o Tui e eu (além dos supracitados). Com as ferramentas e materiais fornecidos pelo Sr. Oldair do Projeto Pedra Viva tivemos a chance de arrumar degraus, fazer contenções, colocar pedras, tocos, toras, ajeitar, alisar trechos, podar mato, colocar “corrimões” onde não se deve passar entre muitas outras coisas. Agradecemos ao Águia que esteve lá com a Motosserra fazendo estacas para as contenções dos degraus (tanto que até acabou toda a madeira que havia disponível pra isso!).  Infelizmente não pude ficar até o final mas não vejo a hora de voltar lá daqui 2 semanas pra verificar o resultado final!

Ives também levando lenha

Ives também levando lenha

A Isa botando em prática seu projeto arquitetônico para o degrau, e Bruno só de suplente!

A Isa botando em prática seu projeto arquitetônico para o degrau, e Bruno só de suplente!

Processo de construção de degraus - Contém a água e melhoram a trilha

Processo de construção de degraus – Contém a água e melhoram a trilha

Canaleta para escoamento de água - Extremamente importante desviar e frear a água que é o que fode mais a trilha!

Canaleta para escoamento de água – Extremamente importante desviar e frear a água que é o que fode mais a trilha!

 

E são essas as poucas fotos, quem tiver mais manda aí que eu coloco!
Valeu galera, teve bão! No domingo foi pouca gente, eu mesmo não pude ir, parece que terminaram alguns detalhes que faltava na trilha norte, mas parece que a trilha sul continua intocada (pra quem queria ajudar, #FikDik

 

Manutenção e Abertura de Vias na Região

Essa chapa da direita foi substituída por uma igual à da esquerda

Essa chapa da direita foi substituída por uma igual à da esquerda

Pra você que não sabe, a região a que me refiro é a de São Carlos – SP. No final de semana passado nos dedicamos a arrumar paradas de vias e as “permadraws” da invernada. A parada da “Sexo, sangue, suor, lágrimas e gritaria” ganhou uma corrente maior, deixando tudo mais estético e harmônico. Apertei a ultima chapa antes da base da Caixa de fósforo que tava umas 4 voltas solta. Tentei tirar o segundo bolt da Narcotráfico mas só consegui apertar a porca e agora está bem melhor (mas ainda volto lá com pé de cabra e arranco, pra por algo melhor no lugar!). Trocamos a chapa da direita da base colômbia por uma fixe com argola, agora ficou com 2, ta liindo!!! Coloquei as correntes que tavam faltando nas duas últimas chapas da Caixa de Fósforo Extension, só ficou faltando colocar o mosquetão na debaixo, que foi colocado no finde seguinte. Tirei as chapas da Temforfri que é uma via abandonada de 3° grau que (só serve pra rapeleiro mostrar que escala) ninguém entra, que possui muitos blocos soltos e chega até a ser perigosa. Aí a argola dali coloquei na base da “Barranco noveá”, que tinha aquelas merdas de Boniers que ninguém gosta pra limpar que sempre era um sofrimento. Agora ficou com a chapa Fixe com argola mais uma chapa normal com malha rápida.

Mas o dia não foi só de manutenção: Aí Shimoto estourando uma veia do pescoço de tanto fazer força na Colômbia

Mas o dia não foi só de manutenção: Aí Shimoto estourando uma veia do pescoço de tanto fazer força na Colômbia

E beleza, domingo climb no cusco, nada demásss… e Segunda feira aproveitando nosso Sherpa Marião pra ajudar a carregar as tralhas, voltamos no cusco pra abrir um projeto antigo, uma linha muito bonita e óbvia que eu não sei como ninguém da antiga tinha aberto ainda. Cogitávamos até chamá-la de “A roupa nova do rei” heheh em alusão ao conto do rei que tinha uma roupa que só os inteligentes podiam ver hehehehe Estávamos na fissura também para estrear os nossos novos chumbadores “ALFA” que dão expansão independente da dureza ou podreza da rocha, dispensando o uso de Sika e tornando viável a conquista de vias de baixo pra cima. E foi o que fizemos.

Esses aí diferentes são os Alfas... e no fundo a chapa com argola que agora está na Colômbia.

À esquerda os parabolts PBA tradicionalmente utilizados, à direita os Alfas… e no fundo a chapa com argola que agora está na Colômbia.

Escalamos a Insaciável e o Beto saiu escalando na direção da preterida aresta. Havia um bolt batido uns 3m pra cima/frente da parada que talvez pudesse ter sido da Sedosa, que agora está com chapa, e mais acima o Beto bateu o primeiro furo. Colocou a chapa e tocou pra cima, numa viradinha delicadinha com muitas agarras boas, que deve deixar o lance em 4sup no máximo. Depois é um rampão só, de 3° grau até o platô do bundão. No rampão o beto ainda colocou mais duas proteções, uma bem depois daquele “crux” e uma antes de virar para o platô propriamente dito. Aproveitamos e tornamos a Sedosa escalável de novo pois havia um cactus gigantesco ali (aliás, ali há uma floresta de cactus, tiramos apenas um de um milhão) e agora é possível acessar o platô sem tomar cactada na cabeça, bunda, braço, costa, cara, enfim… A nova via ficou gradua da em 4sup, foi conquistada debaixo pelo Beto e por mim, que fui de segundo de tênis sem maiores problemas e agora configura mais uma opção à famosa “TRÍPLICE”  para dar CUME saindo pela Insaciável, passando por ela (ou pela sedosa antigamente) e terminando pela Espinhosa ou Jungle Man. Em virtude dos cáctus e do estilo da via , o nome da via ficou (bukactus) “Alameda das Cactáceas” e talvez coloquemos algum numero no final tipo 42, que é a resposta para a maior pergunta do universo. E pela primeira vez na televisão brasileira a parada da Insaciável conta com dois pontos propícios para passar corda. Por anos essa via teve apenas uma chapa CAMP e uma com canto vivo (Petzl). Mas agora colocamos uma correntona que alinha perfeitamente a chapa Camp e o último elo da corrente (Não a roube, por favor!).

E para finalizar o Post, uma fotinho minha na Invernada fazendo a Silbergeier Sexo, Sangue, Suor, Lágrimas e Gritaria, 7b/c dando um relax entrecruxes 🙂

Minha singela homenagem à Nina Caprez (sua linda)

Minha singela homenagem à Nina Caprez (sua linda)

Ah!!! E parabéns para o Zé e o Raul que adivinharam a Charada!!!! A resposta é Cuscuzeiro! (CUS+CRUZEIRO) Meio óbvio né?! hahahaha  Já bolei uma ótima, no próximo post ela vem!! Ives, esqueceu dos amigos? Cadê a matéria sobre os friends? (tu-dun-tsssss) kkkkkkk

Nova Via em Itaqueri – Via interditada no Cusco

Final de semana de First Ascent’s em Itaqueri! Mas vamos começar com as novas vias:

Depois de tomar um soco do Bruno no baço por brincadeirinha e ficar agonizando no chão sem ar ao chegar em Itaqueri, fiquei azedo e decidi que minha melhor e única amiga era minha furadeira de martelete Dewalt 18v (ok, nem tão minha assim, mas tá em meu poder, logo, doravante denominarei-a como sendo minha). Azedo e sem vontade de cantar uma bela canção, fiz uma seg pra Olívia lá no terceiro setor na Refrigerante de Musgo (5° grau) e depois na Intrusos a Vista (6°sup – que na minha opinião é 7a). Em contrapartida ela se predispôs a ir comigo no setor 2,5 jogar uma corda numa linha que ha tempos eu vislumbrava, e até tinha nome pra ela: Motor de Lancha, em homenagem à corda da Bia, de BotucaPreto (Botucatu com Ribeirão Preto) e sua corda mammut de 14mm e seu desempenho em aparelhos de segurança com travamento automático (vulgo GriGri) designados para cordas de até 11mm. Escalei a castelo de cartas e acessei o cume da falésia, onde, após puxar a corda e aproximar-me do local onde termina a linha da preterida via, fiz um oito em volta de uma “arvrinha” e desci de rapel verificando a possibilidade de uma via ou não. A minha dúvida pairava pois havia muito mato, uma árvore (tipo um coqueiro) e vários blocos soltos na linha. Logo nos primeiros metros já vi um bloco que parecia um Jet-ski, apoiado sobre dois microondas. Com certo esforço rolei-os pra baixo e foi aquela liquidação das casas Bahia: eletrodoméstico vuando pra tudo que era lado: Televisão, microondas, videocassete, geladeira duplex… bastou rolar um bloco que ele desceu limpando a via inteira… via auto-clean, frost free! Até a vegetação e a tal árvore sairam do caminho. Depois foi só descer rolando os refugos (playstations, xbox, dvd players). Cheguei quase no pé da via e subi prussikando com o Gri-gri. Usei um nó que nunca tinha usado fora do curso de autoresgate, e que se mostrou muito eficiente! O Bachman. Bom pois o cordim que eu tinha era meio comprido, e ele tirou a folga sobressalente, e, ao contrário do prussik e do marchard, é super de boa corrê-lo pra cima pelo mosquetão. Mas atenção! Ao botar o peso no mosquetão o nó afroxa! Só se toca no mosquetão para correr o sistema pra cima!

Enfim, uma vez no que seria a base, puxei a minha melhor amiga que a Olívia colocou na ponta da corda junto com o restante do equipamento de conquista, martelei a rocha, que tinha aspecto vítreo, e fiz o primeiro furo. Arenito DUUUUUUURO! Mandei pra dentro o primeiro bolt de 12cm (ah, base em arenito já viu né? Não custa por um boltinho um poquinho maior), e puxei um esquema que eu ha tempos vislumbrava fazer: Uma anilha em U colocada direto no parabolt, dentro da anilha o primeiro elo de uma corrente, e a outra ponta desta numa malha rápida, ligada na outra chapeleta. Medi a distância da corrente, mais o tamanho da anilha em U (ou manilha sei lá, cada hora o cara da loja de ferragem chama de um jeito, isso quando ele não fala que isso não existe, até eu mostrar uma que eu comprei lá 2 semanas antes. Enfim, o sistema ficou com as 2 proteções interligadas e teoricamente econômica. Com a base pronta, acessei a “arvrinha” na qual havia feito rapel, meiei a corda, voltei à base e dela já armei uma parada equalizada, onde deixei um top armado e desci limpando a via mais um pouco.

Eu e minha melhor amiga Dewalt

Uma vez no chão, almocei, e deixei a Olívia dar a primeira entrada da via, aproveitando de sua estatura para marcar possíveis pontos para colocação das proteções. Ela isolou todos os moves, o que me deixou bem contente, pois eu estava achando que a saída da via, que é praticamente um teto, poderia vir a ser dificil, o que não se concretizou. Entrei também e, apesar dela ter marcado as proteções, ponderei onde eu alcançava e onde ela alcançava e marquei onde seriam os furos, tendo em vista a proteção de cada lance. Quando eu comecei a fazer o primeiro furo (de cima pra baixo) acabou a bateria da furadeira! A sorte é que tinha outra reserva da outra furadeira do CUME, que eu fui pegar emprestada junto com um facão do frango, para terminar a via. Fiz todos os furos, todos em arenito excelente, duro, e, com o restinho de bateria fui tentar fazer um furo no meio da via, que eu havia deixado pro final pois não sabia se era necessário mesmo ou não. Por isso, deixei ele pro final. Foi só eu furar 1cm acabou a bateria de novo, mas desta vez tendo feito 4 furos e meio de 8cm. Nisso já tava a Bia e a galera de Rib. Preto junto com a Olívia registrando o momento e esperando a conclusão da obra.

A cara de felicidade do sujeito abrindo via nova =) , e fácil ainda!

Já tinha limpado o mato da saída e as raízes e galhos que tinham sobrado no meio do caminho por onde o Jet-ski havia passado “roçando” tudo então foi só por costuras no rack, puxar corda e subir pra mandar o FIRST ASCENT MEOOOOO.. Aê, foi só curtir a via e deixar equipada pra Bia e a Olívia entrarem guiando também. Grau sugerido: Quinto. Depois o Marcelo de RP entrou tambem mas se enrolou num lance la pra cima acabou nao mandando.. mas blz, acho que o grau é em torno disso aí mesmo, aguardamos mais repetições para confirmar o grau.

Aê! Costurou a primeira não morre mais... ;P

Enquanto isso, não muito longe dali… no terceiro setor o Bruno abriu mais uma via com o frango, entre a intrusos a vista (6°sup), e a nova via aberta semana passada: Diarista (a qual recebeu mais uma proteção entre a primeira e a segunda chapa e está cotada em 7c.). A nova via, batisada de “fast food” está cotada em torno de 7a, ou, no mesmo nível da intrusos a vista. Ao mesmo tempo, o Kalango mandou o FA da tomara que seje, tendo sugerido 10a para ela. Essa via é uma linha que o Bruno de Itirapina tinha batido uma base já vislumbrando a linha, e que o Frango e eu equipamos mais ou menos um mês atrás, e fica ao lado direito da “por via das dúvidas” (7c) e a esquerda da Escalibroca, ainda sem FA (projeto). Enquanto tudo isso acontecia o Zoro armou um top mais pra direita da escalibroca (e à esquerda da via nova do Murilo e do Beto, ainda sem nome e faltando uma chapa), numa grande aresta lista que vai até o cume da falésia.

Foto da via para quem for repetir: é essa aí ta vendo?! No setor 2,5 não tem como errar...

E foi isso! Ainda a noite a Bia e a Olívia entraram na “Onde a cascavel cochila mas não dorme” (7a), onde a Bia por pouco não manda a cadena.

Já no domingo fizemos a caravana da alegria pro Cusco: o Guilherme o Bruno e eu, para mandarmos a cadena coletiva da Leite com Pera, e lá iríamos encontrar com Isabeto que vinham de Holy cross of the conception. Y que passo? Dignidadeeee.. o Genja perdeu a dignidadeeeeee….Perdi. perdi mesmo. Dei um curintcha na via, peguei na costura mesmo, e daí? Vamos aos fatos.

O Bruno já com tomelirrolímetro ligado e sentindo uma torrente de glória, entrou equipando a manga só com costurão de 6ocm e já foi equipando a leite. Vacou no crux, voltou e equipou mais uma, a depois do crux, mas desceu. O Gui entrou na sequência e aparentemente também caiu de jão na agarra da cadena depois do crux. Minha vez. Tomelirrolímetro marcando: ZERO. Subi a manga om leite me arrastando, sem vontade, como se fosse um martírio e estivesse ali obrigado. Pressionado a mandar logo aquela via que eu não tinha boas lembranças depois da mega voada de é…é.. depois da é… da vaca alucinante que eu tomei..é… caí mais de 60m em queda livre… Fiz a manga, fiquei mil anos no descansão sem as mãos e quando finalmente enchi o saco de ficar ali (é, Não foi pq eu senti vontade de escalar, foi por falta de paciência em estar ali mesmo) comecei a subir e ja no primeiro move do crux tinha esquecido um pé e caí meio de jão. Logo voltei e terminei a via. Uma palavra me via a mente, e havia substituído aquela sensação de “PORQUE QUE EU TÔ ESCALANDO ESSA VIA?”. A palavra foi: TERROOORRRRRRRRR….  A mão não parava nas agarras, o pé tava ruim em qualquer lugar. Passei rápido pela via até o final e desci, pro Gui entrar de novo e…. TADÁAAAAA!!! MANDOU!!!!

Finalmente uma cadena, depois de mil anos (ok, 6 entradas ao todo, 2 no dia).. nos matou de orgulho e abriu as porteiras para as cadenas. Eu já com o tomelirrolímetro quebrado, tangafroxímetro subindo e escusímetro a milhão (Bé-bé-béeee)…fiquei ali… esperando a vontade vir… esperando a vontade de subir a via vir… esperando… esperando… cansado de esperar a vontade de escalar aparecer, fiquei sem paciência depois de uma meia hora e fui acabar logo com isso, como quem tem que ir fazer um exame de fezes ou escolher as cores da cortina da casa nova.  (o que é muito pior que acompanhar a mãe ao médico, só pra constar). Que fique claro que eu faz tempo to querendo entrar nessa via, só que esse dia, sei lá… não era dia. Subi a manga tentando não perder tempo, cheguei no descanso, descansei DOIS mil anos, reduzí o batimento cardíaco e fui. Obstinado. Foco. Pá, pá.. pá… preciso. Sem errar… peguei no regletinho de esquerda. Era só juntar a direita numa lasquinha e retapar no agarrão da cadena. Não pensei duas vezes. O TERROOOOOOOORRRR tomou conta. Não era medo. Não era receio. Não refuguei, porque em nenhum momento eu senti que eu ia. Estava sólido. Mordendo os regletes. Não estava tijolado. Havia treinado para o lance. Havia fechado a boca a semana o mês inteiro já fazia tempo, treinei no boulder da garagem de casa travessias parecidas com esse move. A mão não escorregava mais no reglete. Os pés finalmente colaram nos regletinhos lúdicos de pé como cola, a chapa no joelho. Tudo certo para simplesmente fazer um move de 20cm até uma agarra, estático, e… TERRROOOOOOORRRRRRR…… Não consegui pensar em nada. Não consegui pensar em cadena, nem em negociar com o medo, nem utilizar-me de subterfúgios para driblar meu ego. Naquele momento, naquele segundo, tudo o que existia era: A costura debaixo. Peguei na costura. Peguei mesmo. E na debaixo ainda. E pegaria de novo, e peguei de novo. E um estado de paralisação me consumiu, e simplesmente não conseguia. Não podia. Um estado de congelamento. Eu Não podia mais escalar. Só queria que aquilo, que eu sentia que eu não devia ter começado, acabasse de uma vez por todas. Dignidade? Eu passo. Passei.

É claro que eu gostaria muito de ter mandado a via. Mas um dia da rocha, outro do escalador. Hoje foi um dia para abaixar a cabeça, e, mesmo tendo insistido, tendo feito o que deveria ter sido feito (entrar na via, kamon, vamo lá!) O Timing simplesmente não bateu. Não encaixou. Porque se você não sente vontade de fazer alguma coisa, entrar numa via, sente sabe-se lá porque não entrar numa via, então talvez não deva insistir. Escalada era pra ser gostoso. Não terror. E pior que é um terror que nós fazemos conosco mesmos. É claro que nós devemos nos desafiar, devemos sentir aquele gostinho de aventura quando estamos escalando, de sair da zona de conforto, de encarar nossos medos. De se preparar para a escalada, fechar a boca, comer direito, treinar, se dedicar, dar algo para receber em troca, enfim. Mas eu estou falando que o problema não foi o medo, e encará-lo. O problema foi ter ido a uma batalha sem aquela determinação, sem vontade de lutar a batalha. Pois de quê adiantou? Escalar a via sem vontade, sem estar animado para tanto é que foi o problema, pois, medo eu vou ter sempre mesmo. Mas falta de vontade de escalar uma determinada via.. hmm… é bem dificil de acontecer. E de fato, hoje foi um dia excepcional. Paciência. Outros dias virão.

Ah, destaque para a coruja obesa (da quase pra fazer linguiça com ela – linguiça de frango!) que fez ninho perto da base da Leite com pêra, (parecem mais dois ovos de páscoa de tão grandes os ovos). Pelo tamanho e pelas cores acreditamos se tratar de uma Suindara.

Não vimos a cara, mas parecia ser essa coruja aí

Ela cantava como coruja, voava como coruja, logo concluimos que fosse uma coruja mesmo, só que gigante! Segundo a Wikipedia, os filhotes demoram de 5 a 6 meses para entrar na fase adulta e aprox. 30 dias para eclodir os ovos. Logo, eu ganhei mais 6 meses de paz de espírito pra não ter obrigação de entrar na via de novo, e 6 meses de encanação de não poder mandar a cadena da via que eu mesmo abri. Ok ok, prefiro pensar nos 6 meses de paz de espírito. =)

Filhotinho... Filhote de Cruz-credo, isso sim! Que horror!

Logo, pedimos a todos os escaladores que não escalem a Leite com Pêra, que fica no cuscuzeiro em analândia, nos próximos meses por conta do ninho da Coruja, que está bem perto (embaixo na verdade) da parada da via.

No mais, é isso aí, paciência, e até o próximo relato!