Tudo o que você sempre quis saber sobre mosquetões, mas sempre teve preguiça de perguntar!

Mosquetões... Junto com as sapatilhas são os ítens que eu gosto mais! (foto: E. Frechou)

Sempre que alguém me pergunta que mosquetão comprar, eu penso em dizer aquela velha história: Primeiro depende de pra quê você vai usá-lo. Mas aí eu penso nos preços absurdos e abusivos praticados no mercado brasileiro, e acabo sempre recomendando o mais barato mesmo. Mas dentre os mais baratos, claro, há diversas categorias. Independentemente do preço, os mosquetões são classificados de acordo com seu formato e trava do gatilho, basicamente. Os mais comuns são mosquetões em formato D, HMS (ou pêra), e oval. O resto pode-se considerar variações desses 3 tipos. Eles são fabricados em 2 tipos de materiais: em Aço e em Alumínio. Os de aço são utilizados por empresas, e são destinados a atividades de trabalho em altura, ou onde possa haver contato com cabos de aço (tirolesas por exemplo) e não são utilizados para escalada devido a seu peso elevado ( 50 ou 100g a mais pode não ser nada para um mosquetão, mas pense em 24 mosquetões em 12 costuras, e estamos falando de carregar pra cima 2,5kg desnecessariamente na pior das hipóteses) , apesar de possuírem resistência maior.  Resta-nos portanto, os mosquetões de Alumínio. Os mosquetões de alumínio podem ser divididos em mais duas categorias, de acordo com a liga com que são fabricados, sendo os mais comuns os de Duralumínio (dural). Esta liga é a mesma utilizada na fuzelagem de aviões. Estes são os mosquetões “normais” que você sempre vê com as pessoas nos picos de escalada. Há outra liga, pouco menos comum, e mais indicada para o uso em espeleologia, que é  conhecida como Zicral, a qual teoricamente apresentaria maior resistência à abrasão, que é um dos imperativos nas práticas espeleológicas. Entre os mosquetões de escalada, ou seja, os de Duralumínio, podemos definir as 3 categorias da seguinte forma:

Formato D

Mosquetão D assimétrico com trava de rosca

Normalmente são os menos caros. Normalmente possuem esse formato para propiciar o melhor assentamento do mosquetão em chapeletas e/ou grampos. O formato D também apresenta uma geometria matematicamente calculada que propicia maior resistência do que os mínimos estabelecidos pelas entidades certificadoras ao mosquetão, o que acarreta em mosquetões menores e consquentemente mais leves, mas com a resistência ainda superior aos padrões internacionais. Há quem os classifique como “D” simétricos e assimétricos, mas ultimamente o importante, a saber, é que eles são os mais indicados para uso em Solteiras e como os mosquetões que vão em contato com a chapeleta em uma parada equalizada. Os mosquetões das costuras também apresentam esse formato, porém, não apresentam trava de segurança no gatilho, para facilitar sua colocação e remoção durante a escalada.

Formato HMS (ou pêra)

Mosquetão Pêra (HMS) com trava de rosca

Esses são os mosquetões utilizados como “mosquetão mestre” em uma parada equalizada, e, por convenção, não são colocados em contato com proteções fixas (chapeletas). Há uma regra que diz que mosquetões que são postos em contato com chapeletas não são colocados em contato com cordas e fitas. Isso porque ao entrar em contato com chapeletas, o mosquetão pode sofrer pequenos desgastes ou ranhuras, e em certos casos, soltar alguma farpa, o que em caso de alguma queda, pode vir a rasgar a capa de sua corda (por isso suas costuras devem sempre ser utilizadas com o mosquetão reto para cima e o curvo para baixo, por onde se vai passar a corda). Este tipo de mosquetão também é o mais indicado para o uso com equipamentos de segurança, como ATC’s, tanto para assegurar um escalador, quanto para rapelar de uma via. O formato Pera assegura que um dos lados (de cima) do mosquetão, seja largo o suficiente para propiciar que nele seja feito um meia volta do fiel duplo adequadamente, o que, em caso de perda do freio durante uma escalada mais longa pode vir muito a calhar. O nome HMS deriva do alemão e quer dizer basicamente Mosquetão para Meia volta do Fiel.

Mosquetão Oval

Mosquetão Oval com trava de Rosca

Os mosquetões ovais não são muito comuns, mas são muito importantes, principalmente nas escaladas clássicas e nos artificiais. Por seu formato simétrico, são excelentes para carregar nuts e outras peças móveis com cabo de aço, pois é possível girar as peças no mosquetão livremente com uma só mão enquanto se busca por uma peça específica. Nos artificiais são especialmente cômodos para manusear Cliffs, estribos, e também para serem colocados em pítons e outros tipos de proteção característica deste tipo de escalada. São muito práticos e em muitas situações substituem tranquilamente qualquer um dos outros dois tipos de mosquetões, sendo considerados muitas vezes, como mosquetões “coringas”.

Travas do gatilho

Mosquetão D ligeiramente assimétrico com trava automática (twist lock)

Quando eu comecei a escalar eu tinha um mosquetão antigo com a rosca quebrada. Um belo dia durante uma escalada havia utilizado todos os outros mosquetões, e este sobrara para minha solteira. Eis que no meio daquela teia de aranha que só na minha cabeça e na dos outros dois que escalavam comigo era uma parada equalizada, eu reparo que uma fita (provavelmente a solteira de um dos dois) mantinha meu mosquetão aberto. Como iniciante para mim aquilo foi bem espantoso, e desde esse dia aprendi pra que serve a trava de um mosquetão. E aquele mosquetão em especial virou mosquetão de carregar equipamentos na mochila apenas.

Existem basicamente 2 tipos de trava. A trava com rosca, a mais comum, não tem muito segredo. Você rosqueia a trava e ela impede que o mosquetão se abra. Você desrosqueia, isso permite que o gatilho se abra. O outro tipo é o mosquetão de trava automática. Dependendo da marca podem ser de vários tipos, mas praticamente o que vamos encontrar são os chamados Twist-lock: é necessário girar a trava do mosquetão enquanto se força para abrir o gatilho. Em alguns modelos é necessário apertar algo mais, mas basicamente é isso. E recentemente a Black Diamond inovou lançando no mercado (na verdade ainda não foi lançado no mercado) o chamado Magnetron, que é um mosquetão de trava automática, porém com fecho magnético, como o próprio nome já indica.

A nova trava de gatilho da BD

Tipos de Gatilho

Até 1 ano atrás, as pessoas só conheciam 2 tipos de gatilhos: o Gatilho “normal”, e o gatilho de arame (wiregate). Em 2011 a Petzl inovou colocando à disposição das pessoas um mosquetão de costura novo, com um novo tipo de gatilho, que é mais uma derivação do gatilho de arame tradicional, do que uma inovação propriamente dita. Praticamente todos os mosquetões que não sejam de costura, possuem o gatilho “normal”.

Este é o mosquetão da DMM sem nariz, com gatilho de arame

Os gatilhos de arame são utilizados unicamente em mosquetões de costura “D” ou em mosquetões Ovais. Eles foram introduzidos lentamente e pouco a pouco vem ganhando o mercado por possuir muitas vantagens. Acabam propiciando mosquetões mais leves, são simples, mais “molinhos” para costurar do que gatilhos normais, e por não possuir molas ou engrenagens, não acumulam sujeira que com o tempo pode vir a comprometer o funcionamento do gatilho normal. Também por um gatilho de arame ser muito mais leve que um “normal”, quando um mosquetão de arame sofre um impacto, o arame não sofre aceleração pela inércia do impacto, e não se abre, nem por uma fração de segundo, o que ocorre com o gatilho “normal”. (VER VÍDEO) O lado negativo do mosquetão de arame é que até o ano passado 95% dos modelos encontrados no mercado internacional (e 100% no nacional) apresentavam o chamado “NARIZ”.  Até 2010 os mosquetões de arame sem nariz já existiam: A DMM fabrica um mosquetão com gatilho de arame com um sistema muito curioso mais parecido com os gatilhos de arame, mas que não apresenta Nariz. Só que não houve uma ampla distribuição e divulgação deste sistema. O que a Petzl fez foi criar um terceiro sistema, e divulgá-lo, investindo numa campanha de marketing muito mais intensa que a DMM, cujos mosquetões sem nariz pouca gente ouviu falar.

Mosquetão D, assimétrico, sem trava, com gatilho de arame

Mas o que é esse tal de Nariz?

Mosquetão sem nariz ou sem focinho é uma mão na roda. Bem no lugar onde o gatilho fecha, e encosta no corpo do mosquetão existe uma espécie de trava, para quando o mosquetão sofrer deformação elástica devido a uma carga, essa tensão ser distribuída ao longo de todo o corpo do mosquetão igualitariamente, fazendo-o suportar os tais 22KN quando fechado, e na posição longitudinal (e por isso mesmo quando ABERTO suporta menos de 8kn). Essa trava é normalmente um “dentinho” no corpo do mosquetão que morde o outro “dente” que está no gatilho, fechando o ciclo. Esse dente é o Focinho (ou Nariz) do mosquetão. Quando presente, este focinho enrosca em tudo na hora de tirar o mosquetão de onde ele está e por em outro lugar: Do rack da cadeirinha, do loop, de uma fita porta-materiais… E o mais importante e incômodo: quando se está descendo de uma via tirando as costuras das chapeltas o nariz SEMPRE enrosca na chapeleta, tornando o simples ato de tirar um mosquetão de uma chapeleta uma novela. Principalmente em vias negativas ou com diagonais. Aí é realmente um pé no saco limpar a via com o nariz do mosquetão enroscando nas chapeletas.

Mosquetão HMS com Trava de Rosca, Gatilho Normal.... Com NARIZ "enroscante"

Devido a isso, normalmente os mosquetões de cima das costuras, que são para a chapeleta, possuem gatilho reto e não possuem Nariz. Os mosquetões que não tem nariz possuem um sistema chamado Keylock ou SnagFree (livre de enrosco). A tendência atualmente é que todos os mosquetões já venham com este sistema, principalmente porque com o tempo a patente deste sistema tende a expirar, então a maioria dos fabricantes deve adotar este formato para “o novo nariz” de seus mosquetões. Ainda falando de costuras, os mosquetões debaixo possuem a tendência de ser de arame, pois, mesmo com nariz, este não enrosca tanto na hora de tirar a corda de dentro, não causando tanto estorvo quanto pra ser tirado da chapeleta, e aliviando peso do conjunto.

Mosquetão D assimétrico com gatilho normal, sem trava. Observe que no ponto onde se junta o gatilho com o corpo do mosquetão não há o "Nariz" da figura anterior

Na hora de escolher o mosquetão de suas costuras, portanto, devem-se levar em conta alguns critérios e fatores. Primeiro que o mosquetão de gatilho reto seja sem nariz. Ponto. Para escolher o mosquetão de gatilho curvo (para corda), você deve decidir entre os seguintes parâmetros: Um mosquetão mais leve de arame, com clipada um pouco mais mole, porém com nariz, ou um mosquetão ligeiramente menos leve (nem tenho coragem de dizer “mais pesado” quando estamos falando em 5 ou 6 gramas) porém sem nariz. Leve em conta que alguns mosquetões de gatilho “normal” são tão molinhos para clipar a corda quanto um de arame, ainda que esta não seja a regra.

Costura com o Mosquetão com gatilho reto (de cima) normal e sem nariz, e com o mosquetão de gatilho curvo de arame, e portanto, com nariz (hoje está cada vez mais comum encontrar costuras "mistas" como estas)

Costura tradicional: Gatilhos retos e curvos com gatilho "normal" e sem nariz

Como provavelmente é um amigo seu que vai trazer suas costuras de fora do país e você não vai poder apertar o gatilho pessoalmente pra testar, esse fator fica fora dos critérios de seleção de um mosquetão de costura. A menos que você possa comprar um dos mosquetões mais caros do mercado, é claro, que resolve essa questão: É um dos mais leves da categoria (se não o mais leve), possui clipada molinha, e não tem Nariz. Na hora de decidir qual mosquetão comprar, dê preferencia para os mosquetões sem nariz também, pois é muito mais prático e não enrosca em tudo.

Este é o mosquetão de arame e sem nariz lançado este ano

Quando eu vou ensinar um iniciante sobre mosquetões, a primeira coisa que eu falo normalmente é sobre as resistências, cargas de ruptura e sentidos de utilização e NÃO UTILIZAÇÃO. Considero que quando você entrou no blog já sabia pelo menos que no mosquetão tem coisas escritas, e o que elas significam. Caso não saiba, elas são as certificações internacionais (como UIAA e CE), e as resistências em cada eixo e com gatilho aberto.Você também já deveria saber (ou não né, se for iniciante tudo bem ;D ) que os mosquetões jamais podem sofrer tensões de modo que o torçam, o dobrem e o amassem. E há quem diga que não podem cair de muito alto, mas aí é tema pra outro post do mesmo tamanho desse!

21 pensamentos sobre “Tudo o que você sempre quis saber sobre mosquetões, mas sempre teve preguiça de perguntar!

  1. valeu pela aula!rs
    Eu penei muuuito pra aprender sobre mosquetões no começo.
    Acho que demorei uns meses pra fechar minha primeira compra pq estava muito confusa. Vou recomendar a leitura pro pessoal que conheço e está começando pra clarear a cabeça da galera!

  2. valeu pela aula!rs
    Eu penei muuuito pra aprender sobre mosquetões no começo.
    Acho que demorei uns meses pra fechar minha primeira compra pq estava muito confusa. Vou recomendar a leitura pro pessoal que conheço e está começando pra clarear a cabeça da galera!

    +1

  3. Legal, aprendi um bocado, gostaria que vc.informasse a respeito dos mosquetões para trabalho nas industrias,bombeiros. Quais os tipos mais adequaos para essas atividades?

  4. excelente, sabe se há alguma diferença de resistência entre o mosquetão com arame ou o “normal”, alem da indicada pelo fabricante.

    • Tecnicamente não há nenhuma diferença na resistência entre os dois e o único “contra” do mosquetão de arame é mesmo que ele tem um ciclo menor de aberturas que o “normal”. Mas isso faz com que vc possa abrir seu mosquetão em vez de 500.000 vezes para um gatilho normal, apenas 200.000 vezes para o de arame (aproximadamente claro). 😉

  5. Muito legal o POST , mas gostaria de saber mais sobre as especificações grafadas no mosquetão..pra poder saber qual posso colocar no parapente…( acho que é o mesmo que vcs usam em escaladas)

    Abraços e valeu!!

    • Oi Ailton, no mosquetões estão grafados normalmente as normas às quais os mosquetões atendem, e a resistencia no sentido longitudinal, transversal e aberto. As vezes tem a marcação do lote com data de produção do fabricante. Agora, com relação ao parapente, realmente sou totalmente leigo!

    • Acredito que deva ter um coeficiente de segurança aí, mas por via das dúvidas, eu consideraria que é a carga de ruptura. Aliás, qual a diferença entre carga de ruptura e o quanto ele aguenta?

      • Oi galera carga de trabalho para equipamentos metálicos é de 20% da carga de ruptura e 10% para equipamento têxteis para parapente que trabalha com carga o tempo todo a informação é importante
        Abraça

  6. Cara, fiquei até com vergonha de dizer que não entendi “quase” nada do que vc explicou e deu até vontade de desistir dessa ideia louca de escalar (onde estou me metendo?), mas valeu pelo artigo, está nos meus bookmarks para ler de novo quando terminar de ler o livro do Daflon e, claro, antes de comprar os meus mosquetões. Parabéns, isso é um “mundo” a parte que não tinha a minima ideia!!

    • Ah bom! Pensei que era pq estava muito mal escrito! rsrs Obrigado, o livro do Daflon é muito bom, e se precisar de ajuda com os mosquetões, é só dar um toque! 😉
      ABraço!
      PS – Bem vindo ao maravilhoso mundo da escalada!

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